Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de setembro de 2017

Enquanto elas dormem

Ela dorme. Mas e quão profundo será esse sono? Vou chegando próximo à cama com passos macios, invejando os caminhar dos gatos. Pego a cadeira com cuidado, muito cuidado, a ergo do chão, trago para lado da cama, volto a baixá-la com o temor de quem coloca a última peça no topo do castelo de cartas. Sento-me em etapas, parando a cada microrrangido do chão, da cadeira, a cada farfalhar do tecido das minhas roupas; torço para que a lentidão dos movimentos vença a batalha contra qualquer barulho, o menor que seja. Estico a mão até o abajur, mas antes preciso desviar do copo de água; viro a lâmpada na direção da parede para abafar a luz, e é com crescente medo que vou pressionando o interruptor, temeroso de um tec por demais escandaloso. Tec, estala o interruptor. Prendo a respiração num minúsculo e tenso suspense: um, dois, três, quatro, cinco segundos... Não, ela não acordou com o tec e nem com a luz. E é assim que agora, na penumbra do quarto, posso assisti-la; com um sorriso bobo repuxando meus lábios, eu posso finalmente assisti-la. E como isso me faz bem.  


Completamente descoberta, posso vê-la por inteiro, uma paisagem emoldurada pela cama. A madrugada é quente, a janela aberta pouco ajuda, e por isso ela se esparrama toda sobre os lençóis. Está deitada de lado, rosto meio chafurdado no travesseiro. Os braços abrem-se como se fizessem uma mímica da boca de um jacaré, talvez do Bicho-papão. As pernas, igualmente afastadas, são o Papa-léguas no exato instante em que percebe o precipício e ainda não caiu.  Meu temor predileto, meu desenho favorito. 

A calma me invade numa onda avassaladora, o mais tranquilo dos tsunamis. Descubro que é assim que mais gosto dela: envolta na tranquila mística do sono. Ela respira a falsa eternidade, contrai minimamente o peito, ressoa pelos lábios timidamente abertos um tímido chiado. Que sonhos embalam esse sonho? Ela dormindo é suavidade, é leveza, é uma nuvem letárgica num dia fresco, azul e sem vento. Tudo isso eu sou também, aqui, ao lado dela. 

Meu desejo cresce. Mas desejo de quê? Reparo em seu pijama branco, macio, velho, um toque de infância misturado à tarde de domingo comendo pipoca. E meu desejo cresce. Noto os seios desenhados contra a etérea camisa; assisto às pernas orgulhosas saindo do breve shorts; diviso a trilha de três pintinhas muito ousadas que vão explorando o além-sul do umbigo. Meu desejo cresce, mas não, não é envolto em carne e prazer. É outra coisa, uma coisa funda, emaranhada, que vem puxando lá de dentro uma tranqueira que nem sabia existir; e é também essa coisa boba, adolescente, de borboletas batendo suas asas e desencadeando tufões aqui, bem aqui na minha barriga. Esse desejo me põe ao lado dela, inevitavelmente ao lado dela, ainda calmo, mas tão desejante. Mas, desejo de quê? Às vezes eu quase, tão quase, descubro, mas no fim é sempre nunca. 

Deixo estar. Ignoro seios, pernas, pintas, dúvidas. Permito o momento me invadir mais, sempre mais, e só o momento. E olho para aquele rosto posto sobre o travesseiro e enfeitado por uma dengosa mecha de cabelos. Então, ideia louca: e se eu lhe tirasse a mecha dali? Assim, um leve roçar de dedos, não mais do que a sutil carícia que as abelhas fazem às flores. Mas a ideia é louca e logo sucumbe ao medo de acordar a flor, ou de perceber, pasmado, a carne por trás daquela mística. Mas outras ideias, ainda mais loucas, começam a se animar: e se eu, ao invés de tirar a mecha, me tornasse a mecha? Ou me tornasse o travesseiro? Ou me tornasse um com ela, minha dorminhoca, e dormisse nela, e provasse daquela serenidade in natura? E se eu me diluísse no aroma daquele quarto encantado? E se eu fosse o ar que ela respira, e expira, respira, e expira...

Susto. Ela abre os olhos. Eles se arregalam numa fração de segundo e vejo-me refletido neles. E vejo-me pintado na cor do medo, do medo de sempre, do tipo animalesco e profundo. Uma mão rápida e pesada sufoca o grito ainda na garganta. Outra mão, a gêmea mais perversa e já bem ensaiada em suas diabruras, crava a lâmina na carne, que salta em espasmos desesperados. Crava uma, duas, três, quatro vezes. O som macio e molhado silencia o quarto. Apaga-se a trilha das ousadas pintinhas ao sul do umbigo, tomada que foi por um inesperado véu, uma cortina espessa e jorrando aos borbulhos. 

Ela voltou a dormir, já sem espasmos. Vejo, não sem tristeza, o vermelho no pijama branco e sinto que essa é a maior prova da realidade. Essa realidade úmida e quente que parece me subir pelas mãos, de novo. O encanto se parte e a magia vai se desprendendo da penteadeira, dos livros, duma inesperada coleção de vinis, das caixinhas recheadas de bijuterias, dum esquecido bichinho de pelúcia sobre o armário. Fracasso, sujeira, repetição, o vazio que torna a aumentar. Confuso. Desejo. De quê? No fim é sempre nunca. Confuso. Quase desesperado. Enquanto pulo pela janela, torço para que da próxima vez dê certo, que da próxima eu finalmente descubra.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Domingo no parque

   Domingo, quase duas da tarde, a lasanha ainda descendo e o Roberto lá, todo estirado no sofá; pálpebras pesadas, ameaçava um cochilo gostoso quando o barulho seco de madeira batendo o trouxe de volta. Era sua esposa na cozinha preparando o chá e ruidosamente abrindo e fechando gavetas e portas dos armários, um aviso de que o programa para a tarde ainda estava de pé. Todo preguiça, mas bem treinado de outros domingos, ele levanta do sofá e vai juntando o que lembra: protetor solar, repelente, bonés, esteira de palha, óculos de sol... Óculos?

- Ô, Mô, cê viu meus óculos?

   Mônica procurava agora a sacola grande retornável, aquela vistosa de sucessivas faixas coloridas. A compraram para a feirinha que acontece todo sábado na praça ali perto, porém só uma vez a sacola serviu ao propósito inicial ficando depois relegada a eventuais programas domingueiros como o de hoje. Quando a encontra Mônica logo desconfia; mete o nariz dentro e dá algumas fungadas feito cão de caça. O azedume denuncia que não foi lavada desde a última vez. Azar, pensa resignadamente. Ajeita lá dentro o pacote de bolacha de água e sal, um pano de prato, um potinho com duas facas e algumas frutas. Guardou um canto para a garrafa térmica com o chá, o que a faz lembrar de pegar o adoçante. É quando avista a caixa de bombons. Do fundinho do armário, como que escondida atrás do saco de arroz, a caixa de bombons surge reluzente e chamativa. Mônica fica indecisa, a mão vacila no meio do caminho. Levo a caixa ou não?, se pergunta e sente crescer a desconfiança de que esse presente inesperado dado pela sogra, que jurou não saber que o casal estava em dieta, tinha sido a última provocação daquela velha falsa. A indecisão lhe tomaria mais tempo caso não tivesse lembrado das frutas, do adoçante, do chá substituindo o refresco, da bolacha de água e sal(tão sem graça!), e não tivesse tomado consciência de como os bombons seriam uma traição a toda essa logística de baixa caloria, e sobretudo uma traição à promessa que ela e o Roberto fizeram no ano novo sobre emagrecer aqueles quilinhos a mais que a pacata vida de casados veio dando aos dois. Deixou a caixa de lado, a reservando mentalmente para um daqueles dias em que a vida se mostra azeda demais. Nisso a água ferve e é hora de colocar a erva em infusão. 

- Tá pronto, Beto?, grita em direção ao quarto.

   Passar um domingo de sol em um parque grande e verde tem algo de prazer e liberdade instintivos, como se houvesse o eco de uma infância da humanidade que permanecesse oculto no peito desses adultos chatos e só viesse à tona nessas ocasiões - ou talvez seja só o contraste com um apertado apartamento de dois quartos com vista direta para o prédio ao lado. Fosse pelo que fosse, Roberto e Mônica adoravam esse tipo de domingo. Abrigados sob a sombra das árvores, se espicharam sobre a esteira de palha e sentem o vento suave varrer o mormaço do verão; nisso até o chá quente dentro da garrafa térmica fica menos despropositado.

   Os dois sorriem a dentes plenos, percebem-se despreocupados, transbordam boa vontade. E como que expressando isso arriscam algumas carícias de casal. Em público as carícias são sempre mais gostosas, como se carinhos e afagos ganhassem em sensibilidade quando com plateia. Claro que tudo muito comedido, afinal, há o bom senso – e há os cinco anos de casados servindo de barreira para a melação sentimental típica dos colegiais. No auge da descontração causada pelo parque, sol e domingo, concordam veladamente em brincar de ciúmes, porque a fulaninha assanhada do escritório do Roberto insiste em ficar curtindo tudo o que ele posta no Facebook, e também porque o filhinho-de-papai-saradinho do andar de baixo quando fala com a Mônica gesticula mais que italiano sindicalista só para desfilar os braços sem manga de camisa e provar que o dinheiro gasto em horas e horas de academia está dando resultados. Mas brincar de ciúmes refresca a paixão, devolve certo brilho na troca de olhares e sempre acaba em beijo dengoso.

   Então alguém lembra do passado, das histórias que viveram juntos, dos amigos que já não veem mais. Recordam também que têm planos, como a grande viagem de férias para alguma belíssima praia no litoral nordestino e o cachorro – ou seria gato, tinham que decidir – que iam arranjar em breve, porque a experiência com os peixinhos já deu o que tinha que dar. E vamos combinar, né, Beto, com peixe ninguém se apega nem cria responsabilidade alguma! Sim, eles já estavam juntos havia um tempo, era hora de treinar a responsabilidade e logo imitar os casais conhecidos, acalentar aquela expectativa sem-fim das respectivas sogras. E quando tudo é dito e outro tanto lembrado, como que faltando o que mais dizer, concentram-se no chá e no molhar as bolachas dentro do chá.

   Aos poucos reina esse silêncio só entrecortado pelo mastigar do biscoito e pelo sorver do chá quente. E aqueles lábios que iam sorridentes parecem desistir e se cansam, e murcham também aos poucos. Mônica vê boa hora para expressar seu arrependimento e se desculpa por ter esquecido de pegar as xícaras. É tão ruim beber nesse copo-tampa da garrafa térmica! Roberto diz que aquilo não tem importância.

   Ela retira da sacola uma laranja e dos potinhos uma faca. Uma laranja sendo descascada faz um barulho gozado e em algum lugar do passado um deles notaria isso - mesmo já tendo notado outras vezes-, comentaria, e então ririam. Porém isso em algum lugar do passado. Porque agora ele repara num homem gordo, indo já pela meia-idade, todo encharcado de suor enquanto corre sofregamente debaixo daquele sol escaldante, e isso dispara a memória da lasanha que Mônica fez no almoço. Bichinhos invisíveis lhe roem por dentro deixando para trás a desconfiança que talvez ela não esteja levando a promessa da dieta tão a sério. Uma rachadura aparece e logo o dique todo se rompe. Uma ranzinzice que veio ali da última semana de trabalho, daquela encheção de saco que o babaca do chefe faz todo dia, se mistura difusamente com pequenas coisas sempre presentes da vida a dois - como o jeito egoísta dela em tomar decisões sem lhe consultar – e então algo precisa ser dito. Coisas que esperavam um momento de espetar o que quer que fosse e que precisam ser ditas. Ó, de lasanha em lasanha eu fico assim e você também. Acho que você deveria levar nossa dieta mais a sério, diz em tom de censura.

   O vento ainda sopra sacudindo o mormaço, as folhas das árvores, e levando o domingo embora.

   Final de tarde, o sol indo embora faz toda uma multidão voltar para suas casas. E Roberto e Mônica também, um casal contra o poente. Ele leva a sacola colorida, agora ainda mais fedida por mais um acidental vazamento de chá, e ela com a esteira de palha debaixo do braço. Uma cena bonita cheia de cores e sombras que talvez valesse uma foto para o Instagram. Roberto dá a ideia, parecendo uma compensação pelo azedume de quando falou da lasanha e da dieta. Contudo, ela recusa; diz que está com pressa para chegar em casa porque ainda precisam passar na padaria lá da esquina, e a essa hora deve estar apinhada de gente – e isso foi a ranzinzice ali de uma outra semana de trabalho, dos infernais filhos dos outros tumultuando a aula da professora Mônica, um outro quebra-cabeças de descontentamentos também aguardando sua brecha muito humana. E em direção ao poente os dois seguem sem conversa, sem contar para o outro a incômoda sensação de deja vu.

   Mal entram no apartamento e já jogam as coisas num canto da sala. Vai primeiro ou eu vou?, pergunta Mônica. Ela vai pro banho e ele se esparrama no sofá, sentindo a mesma preguiça que sentia às duas horas da tarde, como se escondida até agora ali mesmo em algum canto só esperando o seu retorno. Mas agora já não é hora de cochilar, diz ao lembrar que amanhã é segunda-feira. Liga a TV, troca os canais, vê os gols da rodada, descobre que seu time perdeu, e acaba assistindo o depoimento molhado e orgulhoso da professa de primário do mais novo galã da novela das oito que, sorrindo sem graça, parece não lembrar muito bem da tal professora. E já ia fechando os olhos quando chegou sua vez de ir para o banho. Foi, mas não sem antes desligar a TV: tinham combinado que tentariam cortar em 10% os gastos com a conta de luz do jeitinho que o especialista em finanças domésticas do Fantástico sugeriu e garantiu ser possível – basta que todos na casa colaborem.

   Com a toalha enrolada na cabeça e vestindo um roupão domingueiro daqueles que visita não pode ver, Mônica liga a TV. Não que queira assistir alguma coisa. É só que o apartamento pequeno que é, e com aquele estúpido aquário vazio sobre a mesa da sala, fica tão triste em silêncio que até a TV vem a calhar. E isso certamente justifica um gasto a mais na conta, racionaliza ela. Vai até a cozinha e põe a mesa com dois pratinhos para lanche. Ajeita sobre ela a sacola de pães, acha no fundo da geladeira o requeijão light, e fica nervosa por um momento quando não encontrou o peito de peru fatiado e pensou ter acabado. Mas estava lá, apenas escondido atrás da tigela com o restante da lasanha do almoço. Mônica pega também um tomate para rechear seu sanduíche. Então pensa em pegar e cortar logo dois, um para o Roberto. Contudo havia o cansaço do dia, e além do cansaço a visão da lasanha, bem a sua frente, que em algo lhe servia como argumento. Apanhou apenas um tomate e fechou a geladeira.

   Depois de jantar os dois sentam em frente a TV e assistem o domingo entrar nas derradeiras horas. Ao longe, distante do apartamento, escutam motores de carros e motos; parecem surreais, como se saíssem de um lugar oculto só para entrar num túnel infinito, distante, até se abafarem por completo. Nessa hora o domingo é chato demais e eles percebem. Como numa defesa instintiva se aninham no sofá, só que evitam se encostar demais um no outro porque faz calor e os dois já não tem mais público. A tela traz uma sucessão de imagens, rajadas de sons diversos as acompanham, mas com dificuldade compõe algum sentido. Às vezes ele e ela riem, às vezes comentam algo, às vezes parecem economizar palavras, às vezes as sentem subtraídas. E não adianta, o silêncio entre os dois é reinante, quebrado só pela TV e pelas embalagens barulhentas dos bombons que os dois estão comendo e não lembram quem, ignorando a promessa, trouxe aquela caixinha de irresistíveis calorias – seria talvez um daqueles dias de vida azeda demais? E sem que se deem conta o apartamento vai ficando infeliz, todo pintado de azul, uma marcha lenta, aos poucos, como se alguma coisa gasosa e densa entrasse pela janela do quarto e contaminasse todo o resto, bem lentamente, feito bolo assando, estufando pelo calor e pelo fermento, finalmente surpreendendo por ter ficado tão grande.

   De repente Mônica tem um sobressalto e abruptamente desencosta a cabeça do ombro do Roberto. O que foi?, ele pergunta. A sacola! É melhor por de molho e amanhã de manhã pendurar no varal, senão domingo que vem não dá pra ir no parque, ninguém vai aguentar o fedor! Ele apenas estala a língua com descaso e puxa a cabeça dela de volta, disposto a retornar o ombro à condição de travesseiro. Deixa pra lá, Mô, domingo que vem é domingo que vem, tá longe, quem sabe chova, quem sabe a gente almoce na casa dos meus pais, quem sabe a gente não faça nada e fique por aqui mesmo.


   Por aqui mesmo, pensam os dois, por aqui mesmo já há algum tempo. E sem deixar que o outro perceba, temem que por aqui mesmo por muito mais tempo.

domingo, 7 de abril de 2013

Jack não é mais um bobão

    Luísa, caixa rápido número 11. Tem olheiras, cansaço, parece um humano comum que sente dor e frio, e certamente já teve um sonho. Está chegando na parte final do seu turno, mas isso já deixou de ser, há muito tempo, algo reconfortante. Tudo vai se repetir, afinal de contas.

    Filas serpenteiam diante dos caixas, enquanto que uma única, e maior, e iludida de que será menos demorada, estende-se debaixo da plaquinha dizendo caixa rápido. Há tempos no serviço, Luísa já desenvolveu a habilidade de atender ao cliente enquanto repara em tudo a sua volta. Assim vê que, não importa a fila, todos nela bufam; tornam-se lá as pessoas mais atarefadas nesse mundo. Olham no relógio, vigiam para ver se nenhum caixa está fazendo corpo mole, e ficam atentíssimos para pegar no flagra algum espertinho ultrapassando o limite de 15 itens do caixa rápido. Luísa percebe essas coisas e acha um saco. Todo dia é um saco.

    Enquanto atende também pode dar asas à imaginação. E imagina como teria sido se, de repente, por milagre, ela não fosse ela atualmente, mas sim fosse ela mesma de acordo com seu passado, com os tempos de escola. Xodó dos professores, elogiada por ser tão boa em números quanto com palavras. Notável por destoar da escola em que banheiros eram mercados de drogas e sexo. E se ela fosse, hoje, não o que é, mas uma versão continuada dessa aí do passado? Essa que foi interrompida pelas novelas da vida, versões chatas sem galãs nem loterias?

    Merda!

    Imaginando coisas Luísa passou o mesmo item duas vezes no leitor de produtos. Bip-bip. O cliente olha torto, dá um meio sorriso, e do alto dos seus cabelos levemente grisalhos diz:

- Opa. Presta atenção, menina. Não quero dar mais dinheiro pro seu patrão não.

    O tom é de brincadeira, como se estivesse tudo bem e o cara realmente não ligasse para o deslize. Tudo bem o caralho, falso do cacete. E Luísa chama a supervisora para estornar o item. A supervisora já vem de cara amarrada, cara de porra, Luísa, de novo?, mesmo que fosse a primeira vez no dia.

    E assim o carro toca. E vem clientes nervosinhos, outros tentam ser engraçadinhos. E tem sempre o cretino que se aproveita da perda da noção de tempo, inevitável naquele serviço, para quando Luísa disser bom dia o filho da mãe, todo gozado, emendar:

- Bom dia? Mas pra mim já é boa tarde!

    Pior ainda se o infeliz discorre sobre a teoria de que bom dia é até almoçar, e boa tarde é depois de ter almoçado. Luísa detesta esse tipo.

    Com o tempo tu te acostuma, dizia uma caixa experiente, que muito ajudou Luísa quando começou no trabalho, e que mais tarde foi despedida porque o gerente implicava com todo mundo que era negro. E Luísa realmente estava acostumada. A dor no punho e o mau jeito no braço passaram a dispensar remédios. Os bips infernais do leitor de produtos já não eram escutados quando ia dormir. O bafo azedo da maioria dos clientes não a fazia recuar. Os chiliques que as madames às vezes davam sobre o desrespeito com o tempo de espera, pois senhoras da idade delas não tinham pernas para isso e blábláblá, eram agora piada na hora do almoço. Luísa acostumara-se... Mas Luísa tem olheiras, cansaço, parece um humano comum que sente dor e frio, e certamente já teve um sonho. Um sonho. Por onde ele estará?

    Não aqui.

    Luísa hesita. Mas não por muito tempo. Larga a pizza congelada, pede licença para o rapaz que já ia empurrando uma coca-cola, e levanta-se. Todos na fila do caixa rápido a encaram, uns estranhando, outros já doidos para começar um motim porque aquilo significaria uns minutos a mais parados na fila. Luísa deu os ombros.

    Saiu da área de atendimento, deu a volta em todos os caixas, e dirigiu-se para dentro do mercado. Todas as outras atendentes, suas colegas, pararam o que faziam, estupefatas. Tentavam entender o que era aquela ousadia em abandonar assim o posto de trabalho.
Luísa caminhava reto para os fundos do mercado. Parecia ir até a grande seção de bebidas geladas. Sim. Abriu a porta, pegou uma Caracu. Adorava cerveja escura. Não qualquer uma, só Caracu, com seu gosto forte, encorpado, e com aquele restinho de sabe-se-lá-o-que no fundo da garrafa, aparentemente essencial ao sabor.

    Nisso a supervisora chegou. Estava vermelha, um pouco pelos passos curtos e apressados, um tanto mais pelo nervosismo. Luísa detestava a supervisora. Cretina, deu pro gerente e agora tá aí, enchendo o saco como se fosse dona dessa merda toda.

    Ocupada em dar o primeiro e delicioso gole na cerveja, Luísa pouco ouviu o que a supervisora dizia. Era algo sobre voltar ao trabalho, também sobre estar louca ou querendo deixar alguém louco. Algo assim. Luísa, nesse instante, só conseguia prestar atenção em engolir a cerveja e em caminhar para fora do mercado.

    Quando passou pelo vigilante na porta de entrada, esse falcão que fica ali pelos malandros e pelas senhoras de bolsas grandes, ela deu um sorriso e desejou um bom trabalho. O vigilante mesmo com o sinal eletrônico tocando pela retirada de um item, a cerveja, sem o devido pagamento, ficou imóvel e aturdido.

    Luísa estava na calçada, livre, e rindo. Enquanto esperava o sinal para pedestres abrir, inclinou a cabeça para trás e inspirou profundamente, até fechar os olhos. Quando os abriu, notou que o prédio próximo, que ocupava parte do horizonte, trazia uma grande pichação. Arte urbana, dizem. Conhecia o homem nela, um ator. Não lembrava o nome. Mas certamente era um ator bem conhecido. E ele dizia algo. De início ela não entendeu bem, mas depois, quando a Caracu facilitou a descida daquela frase pichada, Luísa riu mais e mais, até que partiu caminhando atrás do sonho perdido...

    Só trabalho sem diversão faz de Jack um bobão, era o que estava pichado.



domingo, 3 de julho de 2011

Russa má, vilã de filmes anos 80

Ela parece mulher de filme. Filme americano, de ação dos anos 80. Tem cara de soviética má, vilã. Comunista que come criancinhas e atira no mocinho. E sem perder o cigarro da boca ou o preto do lápis reforçandos os olhos. Fria e sanguinária. Mulher de filme. Mas isso não é um filme, é uma noite de sexta-feira, num bar, onde uns caras tocam rock no palco. E ela dança.

Dança como nunca dancei nem poderia. Desvairada, desviada de tudo. Não tem razão seu frenesi, não encontro. Mas tem ritmo e sexo. Olho, olho, olho, caio fascinado. É o estranho. Exótico dançando a minha frente. O absoluto desconhecido que atiça a imaginação. Fantasias rasgam meu desejo. Fogo em palha, esfumaçado e quente. Eu olho, ela dança, os caras no palco cantam. Já não sei de mim.

E nem deveria olhar. Olho por quê? É noite, é final de semana, ela bebe, eu também, e isso não diz nada, não conta. Nunca vou falar com ela nem ela comigo. Não é do tipo que vai no cinema e consegue aturar o papo cacete de caras como eu. Não é do tipo loirinha boba que estuda Direito com tipos como eu, e que só quer saber de churras e do cabelo para ir no churras. Não. Tem o cabelo preto, chanel revolto e liso. Descontrolado. Preto como o lápis em torno dos olhos. Olhos que olho e caio fascinado. Eu sei, repito-me na exata repetição de sua dança sem fastio. Cabelos pretos. Suados, desgrenhados. Dá para imaginar ela comigo?

Meu cabelo arrumadinho com mousse e dedos precisos. Rosto escanhoado, lisamente civilizado. Perfume empacotado dum Banderas, Bloom, Clooney, ou outro figurão desses. Esse sou eu. Meu eu que não é o dela. E nós juntos? Que piada! E essa minha camisa com a gola por fora do moletom? Rala meu pescoço e faço que nada sinto. Gola vermelha constrastando com o branco do moletom-presente-de-aniversário. Branco contra o vermelho altivo. Altivo, decidido, conquistador, a tua cara, disse-me a vendedora da loja toda dada pro meu lado. Contei o episódio pros caras e riram da piada que nascemos prontos para entender. Mas ela, a russa, a gente não entende. Eu não entendo, e bem queria. Ela dança sem cansar, escapa de mim.

Acende um cigarro. Soviética assassina que fuma LuckyStrike. Vira a cerveja. Virada brusca. Juro que vi a cerveja escorrer pelo canto da boca sedenta. Eu vi? Se há batom ali, ela tá dizendo um dane-se para ele. Bebe sem pudor, sem a frescura das minhas garotas que bebem evitando qualquer associação obscena. É boca na garrafa, sem rodeios. A garganta regada e sorriso maroto. Assumido. Eu com ela... piada. Eu que sou todo cuidados em beber para não ter ressaca. E a roupa preta – cabelo preto, lápis preto nos olhos, camisa preta, saia preta, bota preta, o preto reina sobre ela. Ela tende à sombra e eu cá de branco com essa maldita gola vermelha que já me dá vergonha. Se pudesse tiraria. Essa minha roupa toda eu tiraria só de olhar para ela, minha comunista cruel, tudo na tentativa de ser aceito. Essa gola já sufoca e eu sei que é meu futuro terno. Um dia vem o terno e a gravata. Pra isso estudo. O cara que usa sempre o mesmo terno com o mesmo sorriso trouxa aprendido anos a fio em churras, cinemas de papo mole, e perfume caro que um bonitão qualquer me convenceu a usar. Esse sou eu: terno e sorriso trouxa. Pra isso é que fui parido e chorei. E ela não é isso.

Ela bebe a valer e pouco dá por mim. Posso olhar mais, sempre mais. Displicente como colegial. Disseco sua existência nesse bar esfumaçado. Ela tende à sombra e a invejo por isso, a desejo. Olho e não consigo entender. Como desejo o que não posso entender? E quando foi que escolhi não ser como ela? Em que dia tirei isso do meu eu? Já não me entendo também. Esse é o problema, não entendo ou lembro, nada. A coisa foi natural. E agora estou aqui, eu e meus grandes amigos, eles e suas grandes namoradas. Nós, os pequenos príncipes que podem ir onde quiser desde que não amassem o carro do papai. Podemos até estar nessa espelunca só por gostar de uma ou outra música dos caras no palco. Nós: palavrinha chata que me põe no meio do que de repente me dá vergonha. Ela, a garota, a russa, russa de incomuns cabelos pretos, sanguinolenta e sombria; dela vem essa torrente inexplicável que me desagrada e me envergonha. Vergonha de cobiçar cada gesto, seu ar, vergonha de me perder nas fissuras daquilo que ela me desperta.

Ela não liga, nem que soubesse ligaria. Ela bebe mais. Não para de beber. Já contei cinco cervejas. É que não paro de olhar. Fixo. Hipnotizou-me. O cigarro já morreu e renasceu uma porção de vezes em sua boca, e esses eu não consegui contar. Fumei um tempo, mas parei quando começaram os estágios. Para os estágios até o amarelo dos dentes ferram com a gente. Não tem como esconder que é fumante... Que vontade dum cigarro a plenos pulmões! Beber ainda bebo, mas não daquele tanto. Amanhã à tarde tem futebol, domingo churras – essa constante em minha vida, eterna lei dos meus domingos -, e segunda-feira é outra semana de academia. Não posso beber muito numa sexta à noite, é quebrar o encadeado. Eu, meu terno, o sorriso frouxo e o pacote de vida que me obriguei a comprar: o encadeado. O clareamento dental, nada de refrigerantes, a conversa sacal no vestiário: o encadeado. Minha legenda. De repente quero fugir disso. E poderia. Poderia?

Chega, não dá mais. Preciso sair daqui. A gola, a fumaça, o refrão, a russa, qualquer coisa me aperta. Sufoco. Preciso dum ar, digo pros caras. Fazem piada, Seu fresco. Visto a cara de mau, uma de tantas outras, é minha cara de contrariado e meus amigos sabem. Foi treinada desde os meus cinco anos quando ganhei um Mega Drive enquanto queria mesmo um Super Nintendo. Patético e só agora noto. Ainda assim a cara de mau fica, hábito irresistível. Mando eles à merda e saio em direção à porta. Surpresa. Ela me olha. Essa é a cena: a soviética e seus olhos contornados de preto que me olham. Qual a cor deles, dos olhos? Fico envergonhado sem saber o porquê e baixo o meu olhar. Não enfrento, fujo. E não consegui achar cor nenhuma. Merda. Ando depressa, sair, preciso sair. Olho para trás. Surpresa. Ela ainda me olha, olhar afiado feito punhal, destroça algo de mim. Sair. Rápido. Ar. Tropeço na porta, quase dou com a cara na calçada. Mas eu vi. Sei o que vi. Ela, assassina imperturbável, olhou e depois sorriu. Para mim, ela sorriu para mim. Marota, perversa, cruel. Vilã de filme americano anos 80 escrachado, comunista má que se diverte com a desgraça desses porcos capitalistas. Sorriu triunfante. Sorriu do presságio. Sorriu da comédia que o mocinho encarna.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Me devolve!

(Aproveitando o Dia dos Namorados, um conto antigo meio que reciclado) 
.
.
.

   Junior tentava convencer Carol, mas estava difícil. Irredutível como nunca, ela só fazia dizer não.



- Poxa, Carol! Me devolva, né? Por favor...
- Não.
- Mas ele é meu! Sempre foi!
- Não, já disse que não, e nem adianta insistir.

   O fato: ele era mesmo de Junior. Observação: foi dele só até aquela noite em que conheceu Carol e o mundo explodiu em estrelas coloridas e adocicadas; desde então passou a ser dela e somente dela. E mesmo com o fim do namoro já há três meses.

-Tá me fazendo uma falta danada e sabe-se lá o que vai ser de mim se eu não tiver ele de volta.
- Quase fico com dó.
- E... e... sabe quanta gente morre, todo ano, por coisas assim? Hein? Você sabe? Isso mata, Carol, mata!
- Problema de quem? Meu é que não é – disse Carol cruzando os braços, empinando o nariz, virando para o outro lado.
- Caramba, que foi que eu te fiz? Te dei ele com tanto carinho e agora...
- Carinho o escambau! – interrompe incisivamente Carol. Aliás, com quantas antes de mim você foi ter essa conversa? Para quantas você pediu antes de vir pedir a mim?

   A resposta que Junior daria, supondo ser verdadeira, obviamente não agradaria Carol, que ocupava uma incômoda quinta posição. Mas a culpa não era dele. Que culpa tinha se era homem e homem nunca acerta essas coisas de primeira? E, afinal, antes quinta do que sexta, sétima...

- Veja bem, Carol, isso não é importante. O que importa é...
- Importa sim! – interrompe de novo. Ô se importa! Vamos, pra quantas!?
- Apenas o número necessário para perceber que só você é que poderia me dar o que eu quero, como tudo o mais em nosso namoro, uma história tão linda enquanto durou - arriscou o rapaz.
- Ih! Pode parar com essa ladainha que ela não cola mais. Já foi o tempo. Vamos lá, responda. Quantas? Aposto, ah, se eu aposto! que procurou a Ritinha bem antes de mim, não foi?

   Outra pergunta que, respondida com sinceridade, não agradaria Carol – e o dedo em riste, colado no nariz de seu ex-namorado, dizia isso com toda a veemência.
   Ritinha era a vizinha de Junior e apareceu em sua vida um tantinho de nada antes de Carol. E de visita em visita, fosse por lâmpadas a serem trocadas ou xícaras de açúcar emprestadas, Junior acabou tendo um affair com Ritinha. E jurava ter acabado tudo depois de ter conhecido Carol. O que não impediu Junior, um solícito e prestativo vizinho, de ainda trocar lâmpadas e ceder tantas outras xícaras de açúcar – na certa Ritinha estava trocando todas as lâmpadas de sua fábrica de doces, era o que sugeriam as ácidas amigas de Carol.
   E infelizmente, numa dessas escolhas irremediavelmente equivocadas, Junior tinha mesmo procurado Ritinha antes de procurar Carol.

- Responde, Junior! Procurou ela primeiro?
- Olha, ela é minha vizinha, então achei que pela proximidade eu poderia...
- Idiota! Procurou aquela oferecida antes de mim. De mim!
- Calma, Carol. Foi um erro, tá? O que ela tinha não me interessa. Não é aquilo que é meu e que só você tem.
- Interessante. E o que teu que ela tinha então, senhor Junior?

   Imediatamente Junior arrependeu-se da brecha que dera. Assumir que a outra tinha mesmo algo dele? Coisa de juvenil, censurou-se. E agora vinham as consequências. O senhor empregado antes do nome só podia significar um elevado grau de sarcasmo , com cobertura de ironia, algo que Junior aprendeu a temer havia tempo. Além do que, era a terceira pergunta que se respondida com sinceridade provavelmente não agradaria Carol – pobre rapaz! Mesmo assim a sorte foi tentada.

- Bem, primeiro acho melhor a gente deixar claro que sou homem. Portanto, às vezes, só às vezes, não consigo me controlar muito bem. Mas não é por maldade! É só por um tipo de fraqueza, entende? Algo que não corresponde ao que eu realmente sinto.
- Não, não entendo – diz Carol secamente. O que é que ela tinha de você?
- Meus olhos, mas só um pouquinho.
- Cretino! Cachorro! Eu sempre soube que você ficava de olho nela. E mesmo estando comigo! Seu safado!

   Aquela homérica empreitada já estava cansando Junior. Revivendo um orgulho que aos poucos descabava para a extinção, só restou então elevar o tom de voz e fazer valer de seu apelido 'Junão' cunhado pela rapaziada do futebol.

- Quer saber, Carol? Isso não vem ao caso e tô de saco cheio! O que importa é que você tem meu coração e eu preciso dele de volta.
- Ué, e por quê? Vai dar ele para a Ritinha? - cinismo já em nível tóxico.
- Claro que não!
- Então deixa ele aqui comigo. Vai estar bem guardado. Melhor aqui do que com uma sirigaita qualquer.

   Realmente, admitiu Junior em silêncio. Melhor com Carol do que com essas outras que arranjava por aí. Mas estava sentido falta do seu coração, e como sentia. Já eram três meses sem ele e podia mesmo ser seguro deixá-lo com sua ex-namorada, claro. Entretanto, parecia tão mais promissora a possibilidade de lançá-lo a uma ou outra garota! Existe chance de acertar, e sempre goza-se da excitação em apostar sem ver as cartas em quais se aposta. Junior lera em algum lugar que amor é como um jogo que no fim ninguém ganha e tomou isso como sua filosofia. Ora bolas, a graça toda está em jogar. E como jogaria sem um coração? Impossível!

- Sejamos racionais. Namoramos e foi legal, muito mesmo. Só que não deu certo. Você mesma me disse isso um dia! Lembra? Então, me devolve o que é meu.
- Não. Namorar contigo não dava certo, mas isso não quer dizer que eu não goste de ficar com o seu coração.
- Mas você já tem vários aí contigo! Pensa que eu não sei? O do Marcelo, do Cássio, até do Heitor, isso sem falar daqueles que eu nem conheço o dono. Então por que diabos você quer o meu?
- A gente nunca sabe o dia de amanhã, meu bem.
- Ah! Bem sei o uso que você faz dele e de todos os outros. É só para esnobar suas amigas com uma coleção de corações maior que a coleção delas, né!?

   Aos sábados era tradicional o encontro de Carol com suas amigas. Todas traziam enormes sacos contendo os vários corações que extirparam de pobres coitados vida afora. Davam algumas risadas contando como conseguiram cada um deles e faziam julgamento que envolvia notas e adjetivos. Ora elegiam qual foi o mais fácil, o mais divertido, o maior desafio, etc. Coisas de mulher.

- Olha, Junior, quer saber? Também cansei. Pega isso de volta. Seu coração nunca foi muito bem cotado mesmo. Todo mundo sabe que é fácil-fácil conseguir ele, basta uma Ritinha da vida ou coisa do tipo.
- Verdade. Para você ter conseguido, só sendo fácil mesmo.
- Como é que é!?
- Nada, Carol, só uma brincadeira pelos velhos tempos! – a risada forçada quase convenceu. Vamos, me dá meu coração.
- Hunf. Toma esse treco aí. Mas já vou avisando, se eu pegar outra vez não devolvo mais.

   Todo orgulhoso, Junior olhou para seu coração em mãos e foi para casa.

   Finalmente era seu novamente. Colocou-o no peito e sentiu o deleite das batidas, uma por uma, até se acostumar com aquilo e matar a saudade. Mas, que diabos! Sentiu que algo não estava igual, não ia bem. Alguma coisa mudara e não sabia o que era.

   Com atenção e concentração, em um esforço que levou dias, percebeu que seu coração agora tinha uma grande marca, a cicatriz de uma incisão. E estranhamente Junior sentia que atrás dessa incisão havia um grande vazio, um irreparável oco, um buraco sem nada. Um espaço frio, desolado, que mesmo assim exercia uma grande pressão. Era o centro de uma força se alastrando, apertando, sufocando, oprimindo todo o peito de Junior.

   Atordoado ante aquela sensação, pensou que talvez fosse só questão de não estar adaptado. Tanto tempo sem ter o peito preenchido dá nessas coisas, não é? Contudo, passaram os dias e o vazio, sempre oco, continuava ali, incomodando, doendo, sempre em expansão.

   Revoltado, com uma injúria tremenda, foi atrás de Carol. Queria uma reparação. Feito senhorio lesado, exigia a casa devolvida em perfeitas condições, exatamente como fora acertado no contrato de locação, com tudo dentro, com todas as paredes em pé. O coração não podia voltar assim, defeituoso, sendo que era são e perfeito quando foi para as mãos de Carol. Os olhos iam injetados, bufava sua indignação. Saiu em disparada, em plena noite de segunda-feira, até a casa de sua ex-namorada.

    Mas e como são as coisas! Quando Junior a encontrou... nada fez. Ficou entre murchar e derreter. As palavras de raiva embolaram todas na língua e voltaram para dentro. Estavam completamente perdidas. Nem deu-se conta de que ficou vermelho e gaguejou, tudo feito colegial que há tempos deixara de ser. Se não estivesse tão concentrado naquela voz, a tão conhecida e ritmada voz de Carol, perguntando o que é que ele queria, se não estivesse imerso nela, Junior teria escutado que o mundo explodia, aqui e ali, em estrelas coloridas e adocicadas.

   Mas ele não tinha mais controle sobre si. Seu coração acelerou e a cada batida – mais e mais rápido - aquele desconforto do vazio, do oco, do frio doído, tudo isso cedia e abrandava. Sim, aos poucos tudo era um calor reconfortante, e tudo o mais desfazia-se frente a Carol - ainda inquisitiva e perguntando o que é que ele queria àquela hora. Junior só conseguiu suspirar num meio sorriso pleno de alívio. Seu coração voltara à normalidade. 
  

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Cidade Grande

   São seis horas da tarde e a noite já vem caindo. Vou pela calçada desviando de quem caminha na direção contrária. Passos apressados, vontade de chegar logo, sair do barulho irritante das ruas. O caminho é conhecido, é rotina; não só minha, mas de uma porção de pessoas. Pelo olhar fatigado e camisa marcada pelo suor, sei quem volta de um dia cheio, dia de trabalho; pelo perfume fresco e maquiagem delineada sei quem ainda está só na metade dele. Algumas roupas ainda denunciam mais sobre quem as veste; ora passo por um mecânico, depois um grupo de colegiais, então um mendigo. Certas vestimentas são indecifráveis e por isso só gosto das fáceis, dos estereótipos que todo mundo espera por encontrar na rua. Não sei o nome dessas pessoas, mas isso de início isso é fonte de diversão. Brinco de adivinhar qual nome elas teriam. Depois de um tempo você descobre que são poucos nomes conhecidos para muitas pessoas desconhecidas, e acho que por isso me obriguei a decorar alguns rostos, fixá-los com nomes únicos que não dou a mais ninguém. Torno-os conhecidos íntimos de uma história por acontecer.

   Chego a mais uma esquina. Esperando o sinal fechar para que possa atravessar a rua me junto ao amontoado de pernas que tem a mesma espera que a minha. No meio dos outros vejo um instante que provavelmente nunca mais vai se repetir, não com aquelas mesmas companhias. E ninguém dá a mínima pra singularidade da coisa, só eu. Idiota. Do outro lado, vindo de onde eu estaria logo que superasse mais aquela rua, percebo a Fernanda. Um nome que achei combinar bem com o jeito dela. Parecia uma pessoa querida. Dava até para imaginar um namorado ou irmão menor chamando-a carinhosamente de Nanda.

   Ela estava com passos curtos, rápidos. Estranhei vê-la ali. Geralmente eu a teria encontrado quatro quadras antes, perto da pichação abstrata feita no muro - uma grande sombra negra, toda torta, meio humana, de olhos desproporcionais em um rosto sem boca nem nariz, provocando todos os transeuntes com a pergunta: você se enche de várias coisas e ainda continua vazio?. A julgar pela pressa que a Fernanda vinha e pelo seu aparecimento tardio no meu caminho, só podia estar atrasada para a universidade ali perto. Estuda Turismo pela noite e carrega orgulhosa sua bolsa estampada com o logotipo da universidade e do seu curso. Sei que é caloura já que só com o início das aulas desse semestre é que eu a notei e tivemos nossos caminhos cruzados. Agora ela está a poucos metros, continua com pressa. Dou um oi silencioso em pensamento, sou ousado. ‘Oi, Nanda, fico feliz em te ver aqui!’. Apelido e elogio, quem sabe assim ela sorria e se preocupe menos com o atraso. Não. Apenas passou por mim, sequer me fitou. Estava com muita pressa.

    Chego ao meu destino diário, um encontro marcado com a padaria. É meio lanchonete, parte confeitaria, um pouco também de casa de sucos, mas no letreiro sobre a porta está escrito que é padaria. Não importa, o que eu como mesmo é um prato feito. Enquanto espero a comida reparo como o local está movimentado. Sempre é assim. Pratos batendo, latinhas de refrigerante sendo abertas, um liquidificador que não para. E um monte de vozes. Um burburinho que carrega sempre um rolo de falas em fragmentos de conversas, em pedidos de cafés, bolos e salgados. Mas tento ignorá-las. Com o fim dos nomes que posso imaginar, eu me foco apenas nas vozes que eu consigo classificar separadamente debaixo de um substantivo próprio inventado por mim.

   Assim o Paulo estava lá, sem o Pedro; imagino que tenham brigado, o que é estranho. Sempre comiam juntos ali, combinando em camisetas pretas de alguma banda de rock que não conheço, em cabelos típicos de musico rebelde batendo no meio das costas, e combinavam ainda nos gostos quanto a música em si – confesso que certa vez ouvi com atenção especial a conversa dos dois. Aposto que o Paulo foi quem criou a confusão toda. Ele sempre era o que mais falava, mais fazia caras e bocas; de espanto, admiração, de ironia. E eu sei que emoção demais sempre causa confusão.

    Na porta acaba de cruzar Rita. Moça simples em tudo. Com um jeito gozado, parece que todo seu rosto foi feito tendo em conta um contrato com duas cláusulas: que os olhos, a boca e o nariz não chamariam, nenhum deles, mais atenção do que seus vizinhos podiam chamar, e de que por isso mesmo seriam todos muito comuns. É, ela tem o rosto mais comedido e simples que alguém pode imaginar, e isso lhe dava uma graça especial. Aquele rosto podia muito bem esconder um complicado mistério e estar só disfarçando. Mas aí é especulação. Só sei que Rita sempre ficava ali na porta aguardando o seu namorado, um sujeito que nunca fui com a cara e por isso se chamava Maldonato. Usavam aliança de compromisso e tudo. Era uma satisfação assistir os dois se encontrando. Ela parada na porta, ansiosa, então eis que um sorriso de criança lhe surgia ao rosto, daí bastava olhar pela janela para ver que do outro lado da rua vinha Maldonato. Apesar da minha birra contra ele, admito que sua felicidade ao ver Rita também causava satisfação a qualquer espectador. Mas aí certa semana nenhum dos dois apareceu. Na próxima, só ela veio; sem anel, sem esperar na porta, sem Maldonato. 'Você merece algo melhor, Rita. Ele não prestava', pensei comigo na esperança dela ouvir. Agora, já sentada, ainda sozinha, e tão simples de rosto, a observo e volto a repetir em silêncio que ela merece coisa melhor.

    Uma risada irrompe no ambiente, vem do balcão. José, policial fardado, algumas mechas grisalhas no cabelo, solteiro, provavelmente solitário. Ele ri forçosamente para a garçonete, Silvia, mãe de dois filhos pequenos que às vezes apareciam por lá na volta da escola. Silvia não ria muito. A julgar pelas suas olheiras e dedos sem anéis, eu sei que é uma mãe solteira, sem nem vinte e cinco anos na cara, que sustenta sozinha sua prole. Consigo imaginar ainda uma mãe, já velha, que Silvia também tem que sustentar. Não sei se José patrulha essa área ou só vem aqui graças a um misterioso encantamento que sente por Silvia, mas é claro que sempre tem tempo livre para gastar sua criatividade com piadas na tentativa de fazer com que ela sorria. Em vão. Ele sempre ri sozinho e vai embora sozinho; Silvia tem a cabeça em outro lugar e a boca não prova há tempos um riso gostoso.

    Por fim a comida chega e eu mastigo tudo. Depois fico mais um tempo. Sentado, olho os outros com discrição. Por aqui ninguém gosta de ser olhado. Ao ritmo de um carro que buzina, ou então por alguma freada brusca no alucinante trânsito ali fora, mudo o foco, alterno a pessoa. Se eu bobeio um pouco, me distraindo demais com alguém, acabo perdendo o momento exato em que uma outra pessoa vai embora deixando uma mesa vaga prestes a ser ocupada. Eu me sinto mal nessa hora. Bobeira, eu sei. Mas é o momento em que outras caras, com outras rotinas, vão chegar e não terei nome algum para elas. É também sinal de que o turno da Silvia chegou ao fim e que ela vai para casa cuidar dos filhos, deixando José com o que pensar quando for patrulhar as ruas novamente enquanto arquiteta novas piadas para o dia seguinte. Sinal ainda de que Rita vai tocar sua vida fora dali e sem o Maldonato – esse que eu nunca mais vi ou verei de novo. É o prenúncio da ida de Paulo, músico sem par. Lembro, nessa hora incômoda, até de Fernanda. Será que ela chegou a tempo ou o professor deu uma bela bronca pelo atraso?

    Decepcionado, vou embora. Concluí que preciso de mais alguns nomes para me salvar da multidão anônima. Tentando encontrá-los a caminho de volta para casa, torno a ver alguns rostos que reconheço. Não são muitos, mas os vejo. Em meio à agitação do centro da cidade, reparo que debaixo do intrigante caos de concreto, dos motores e das tribos, há uma pequena ordem. Fico um pouco mais feliz por me convencer disso, e a cada rua que me aproximo de casa sinto-me menos perdido do que estava há um instante atrás. Sei que essa sensação pode continuar a crescer, mas sei ainda que ela vai ser interrompida tão logo eu me atrase ou tenha que mudar de caminho, pois aí todo o mundo gira vertiginosamente num borrão sem sentido, permanecendo intacta somente aquela pichação no muro, sempre provocante. Provocando especialmente a mim, eu sinto. Por isso detesto atrasos e mudanças de caminho. Não gosto de ter que romper essa rotina, meu elo frágil com a ordem que são esses estranhos conhecidos que povoam minha vida cimentada. Estranhos que possuem nomes que talvez não sejam aqueles que escolhi e que talvez amanhã nem sejam mais nada.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Caiu o tempo

Para mim era fim de tarde, mas podia ser o fim de uma porção de coisas. Um fim de tarde no parque que ia bem vazio. Não tão vazio que a parte dos alongamentos e aquecimentos não estivesse com alguém; sabe, aquela parte do parque com barras e suportes para vários tipos de exercícios. Aí havia três pessoas.
Duas garotas de no máximo quinze anos, risonhas como tendem a ser duas garotas de no máximo quinze anos, estavam sentadas nos suportes de um lado. E um velho sentado no outro suporte de outro lado. Não só velho, mas velho maltrapilho. Mendigo na certa.

Sem preconceitos me ponho no meio das garotas e do velho. Os três sentados, eu de pé. Estico ali, estico lá, faço um alongamento. Então, subitamente:

- Caiu o tempo! - diz o velho.

Não só disse como apontou para o chão bem do lado do meu pé.

Procurei com atenção e não vi nada. Nada caído e nada que se parecesse com o tempo caído.

Olhei então para o velho que mantinha um dedo apontando o chão, bem como mantinha firme um olhar que acompanhava a direção do dedo. Um olhar vago, vítreo.

Depois reparei nas meninas e percebi que elas, com um risinho em suspenso nos lábios, aguardavam minha reação.

Constrangido, sem saber o que fazer ali entre o velho do tempo e as garotas do risinho, só pude perguntar:

- Caiu o tempo?

O velho não disse que sim nem que não, apenas abaixou o dedo e levemente balançou a cabeça num sinal afirmativo e pôs-se a olhar, com o mesmo olhar de vidro, lá para um outro lado. Estavam encerradas as explicações.

As meninas riram da piada que era metade o velho e metade eu dando bola para o velho.Sublimei e fui dar minhas voltas no parque. Lá pelas tantas fiquei pensando na coisa do 'caiu o tempo'. Que diabos era isso? Pensei e busquei uma explicação.

Nada. Coisa de louco.

Mas meu olhar, quando se voltou para dentro de mim, topou bem lá no fundo numa porção de curvas de minhas memórias, num lugar cinza em que remorsos e desejos se fundem num abraço de completa solidão para então, e só então, morrerem de uma saudade esquisita.

Pisquei com força, tirei os olhos de mim e joguei-os para fora quase com medo. Talvez a queda do tempo já venha me assolando há muito tempo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Dançarina

O desconforto generalizado me avisa: estou acordado. Mas, hoje, não estou sozinho.

Ela dança em torno da minha cama. Suave, os pés parecem não tocar o chão. E não ouço nada, nem música nem o farfalhar de suas roupas largas – onde estarão os sons que a movem?

Não vejo seu rosto, não sei quem é. Num rodopio tudo se distorce, consigo apenas notar sua pele clara, acetinada. Talvez uma estátua de mármore não fosse o calor que exala.

Ela se aproxima e me sinto confortável. Sensação rara com essa doença me consumindo. Ela ainda dança e se aproxima. Conforto, calor, leveza. Conforto.

Quem é você?

Sinto que estou delirando, não sei se penso ou se falo. Minha boca chegou a abrir? Ela continua a aproximação. Vem por rodopios sensuais, misto de luxúria e mistério.

Quem é você?

Ela chega lenta ao meu lado. Sem sair do lugar, mantém o corpo num balanço brando, a dança prossegue noutro ritmo. Me encara, espera por algo. Mas seus olhos inexplicáveis trazem uma estranha paz. Fico assustado. Preciso saber quem é ela. E então eu a sinto mais do que nunca quando pousa os finos dedos sobre meu peito. Num passe de mágica minha curiosidade cessa. Não preciso saber nada. Não preciso mais de nada... Confortável como há tempos não ficava.

Digo num último suspiro tudo bem, está tudo bem.

Ela para de dançar, interrompe seus movimentos atemporais – agora, depois, antes, nada importa naquela dança. Sorri para mim feito velha amiga e então fecha os olhos. Eu a imito, embarco na escuridão.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Uma garota na lanchonete

Ela entra e a lanchonete inteira pára. Olhos se voltam, cabeças entortam, devaneios correm soltos. Vultos a dissecam, ela sente, sabe que é deflorada bem ali, instantaneamente, sobre a mesa suja de gordura e refrigerante. Hesita e não sabe se tem coragem de olhar em volta. Duvida conseguir encarar todos que a violam com a arrogancia de um desejo. Pede um café, senta numa mesa ao canto e tenta ignorar a viscosidade que vem pelo ar grudar em sua pele. Se fecha, se cala.


Mas não adianta, é inevitável. Vai sendo roubada aos poucos, primeiro sua carne e depois sua humanidade. Quanto mais a olham, observam, cobiçam, mais ela desaparece; cada fantasia que fomenta a priva de ser o que é; tanto mais desnuda a desenham mais a apagam. Porque ninguém vê nada além da sua superfície. Nenhum deles imagina que ela pode imaginar. Ninguém sabe da profundeza abissal que existe indo além do tecido vivo nem da esperança morrendo diariamente atrás do seio. E o labirinto de uma saudade difusa ainda fica lá dentro, bem fundo e frio, incólume, a salvo de qualquer poder de alcance daqueles homens obscenos, e a garota sabe que permanecerá assim, perdida dentro destes caminhos sem saída por muito e muito tempo.


Sem querer resvala para dentro dos olhos de um daqueles vultos, vê seu próprio reflexo sujo em um rosto suado que se repete em todos os cantos. Ela pensa que deveria deixar claro que não precisa daqueles rostos, talvez gritar o nojo dos corpos pesados demais, bradar raivosa que não quer um amor nem um sexo. Então sussurrar numa poesia que já tem alguém que mesmo longe e mesmo tendo ido para nunca mais voltar, esse alguém é dela e isso basta. Não precisa de nada, não precisa deles. Quem é dela e já partiu eternamente não a apaga nem a deflora; quem é dela vai além da pele e intensifica a fé. Quem é dela aceitou pegar o caderno em branco e há tempos escreve aquela história em que ela, a garota, é a heroína do papel principal. Não, não vai voltar, mas a presença de uma ausência como aquela vai mais fundo do que qualquer homem experimentado em desespero pode ir.

Termina seu café e levanta afobada. Quer sair, escapar, evitar a tragédia cotidiana em que se perde novamente. Pretende voltar ainda humana para casa. Ela já tentou, tentou demais, e não pode deixar escapar a vontade de tentar. Precisa sair, fugir, evitar a tragédia sem fim de ser sequestrada de novo, tirada de si mesma por todos aqueles olhares. Voltar para casa e sonhar seus sonhos com a liberdade de quem pode sonhar, neles lembrar daquele alguém que foi embora levando um mundo de coisas e mesmo assim não vai regressar. Não, ele não vai voltar, mas precisa mante-lo; é o que restou, é o que ainda conforta.Paga o café com algumas moedas. Se ilude pensando naquelas moedas como elos de um tempo pretérito, testemunhas de quando ela vestia uniforme de criança toda manhã e pensava no futuro. Sente uma vontade já bem conhecida de voltar ao passado, mesmo que fosse através daquelas moedas de metal escurecido. Um passado sem aqueles vultos sedentos que já começam a habitar seu interior. Mas é besteira, ela sabe que nada volta. Por isso, antes de sair dali, ainda sorri tristemente, lábios servindo só de moldura para o arder daquela melancolia que há tempos a persegue.

Mas nem isso conseguiram enxergar os olhos que a devastavam; ocupados demais em deflorá-la ali mesmo, viram pouco e o que viram não entenderam. Onde tinha solidão enxergaram meiguice de menina. A possuíram, a roubaram, a consumiram, tiraram tudo que puderam de sua humanidade; a chamaram de anjo sem saber que anjos não tem sexo.

sábado, 3 de abril de 2010

O náufrago

Vai ficar aí até aprender a ser gente, disse a mãe enquanto fechava o filho no quarto. Levado ao pé da letra, seria um longo castigo, mas na prática isso se convertia no período de uma tarde. Isso não diminuía o aborrecimento de Jorge; em seus sete anos, estava inconformado pela punição. Tinha certeza de sua inocência.


A mãe insistiu para que ele brincasse com o filho da vizinha - aquela mulher gorda que as vezes aparecia para tomar café depois do almoço. Mas como iriam brincar juntos? Jorge era o único sobrevivente de um acidente aéreo, estava sozinho em uma ilha tropical deserta; teria que comer cocos, bananas, e o que mais a natureza selvagem lhe oferecesse. Não cabia na história uma segunda pessoa, menos ainda o filho da vizinha. O moleque tentou brincar a força, adulterando a história, tentando convencer Jorge de que dois poderiam ter sobrevivido ao desastre de avião. Não, só um pode sobreviver!, rebatia Jorge em sua lógica infantil. E como essa lógica não convenceu o filho da vizinha, que insistia em pentelhar, Jorge se atracou com o moleque puxando cabelos e dando socos espalmados. Daí veio o castigo.


No quarto, com o bico do tamanho de uma tromba, ficou deitado de bruços sobre a cama, deixando a cabeça pender para fora enquanto olhava o chão. Só um podia sobreviver, repetia seu argumento em silêncio.

Um pontinho preto, um pouco amarronzado, cruzava o chão do piso branco do quarto. Jorge olhou atento. O pontinho se aproximava, e quando chegou perto, podia-se ver que se tratava de uma formiga. Com suas mãos fofas e dedos roliços de infante, olhos em faísca pela descoberta, o menino atirou-se ao piso para cercar o pequeno inseto. Agora você é minha, bradou animado, esquecendo do castigo que cumpria.

Voltou a ser um homem ilhado, preso em uma ilha calorenta de palmeiras e praias, com a diferença de que tinha encontrado um outro sobrevivente do acidente aéreo, um cachorro. Mas faltava um nome ao animal, dilema que Jorge resolveu chamando-o amigavelmente de Bidu.

A formiga estava cercada, não podia escapar para lugar algum; as mãos de Jorge a impediam, e como se rebatesse nelas, ficava indo de um lado ao outro no pequeno espaço que o cerco deixara. O homem agora cruzava a ilha ao lado de seu animal, explorava cavernas nunca antes pisadas, procurava por água que não fosse do mar e frutos maduros que pudesse comer.

Mas para tanta exploração, tinha que se movimentar. Jorge não queria deixar a formiga escapar, mas também não podia deixa-la ir embora. Fazia parte da história. As mãos que até então cercavam o pequeno inseto, agora tentavam apanhá-lo. Jorge percebeu que era grande demais para pega-la. Pensou em uma pinça, mas também não daria certo. Dispondo só de sua engenhosidade de criança, esticou bem o indicador e tentou fazer com que a formiga subisse nele.

Para onde aquelas perninhas minúsculas corressem, Jorge antecipava seu dedo na frente do caminho, mas a formiga não cedia. Ao encontrar com o dedo, mudava a direção. O dedo acompanhava cada guinada dada pelo inseto. Na ilha Bidu fugira, e o sobrevivente do acidente aéreo corria a ilha toda em sua busca.

Por um instante, as tentativas de fazer com que a formiga subisse em seu dedo fez Jorge divertir-se mais com elas do que com a brincadeira que corria solta em sua imaginação. Dava aquelas risadas curtas e espontâneas, se animava cada vez que acreditava ter tido exito; o inseto não subia, evitava aquele indicador que o perseguia, mas Jorge se ria.


Tanta foi a animação que seu dedo ao invés de deslizar pelo chão no encalço da formiga, agora parecia digitar um teclado de uma tecla só. Dava pequenos tapas com o dedo, tão rápidos quanto conseguia. Sua exaltação pela perseguição fugiu do controle, e ainda tinha um sorriso divertido no rosto quando notou que seu indicador pousara violentamente sobre o inseto.


O rosto ficou cinza e os lábios murcharam. Temeroso, ergueu o dedo e pode ver que a formiga, em sua delicada natureza, estava morta. Mais do que isso, tinha esfarelado, desprendendo patas do corpo, e o próprio corpo se fez em duas pequenas partículas sem vida alguma. Pedaços inertes como o olhar surpreso de Jorge. Não teve reação.

O sobrevivente não encontrou mais Bidu. Sentiu brotar a tristeza e uma solidão implacável. Com a ilha toda só para ele, teria que procurar por água, cocos e outros frutos sem nada nem ninguém para lhe ajudar. Teria sido bom se mais alguém tivesse sobrevivido, concluiu cabisbaixo, sentado debaixo de uma palmeira enquanto contemplava o infinito azul do mar fundir-se no infinito azul do céu.